sexta-feira, 15 de abril de 2011

As sobremesas intocadas

Só recebi a foto depois do post (o último), mas aí está a prova do meu passeio de bicicleta!


Desculpem o momento auto-ajuda, mas é fato que o vento anda soprando totalmente a meu favor ultimamente. Depois que comprei a passagem para Paris, a Juliana me chamou para ir para Avignon sábado (amanhã), mesmo esquema de Dijon. Ela me falou que a passagem custava 30 euros ida e mais 30 volta, mas como eu fiz um cartão para ter desconto em viagens de trem (para jovens de 12 a 25 anos), encontrei a ida e volta por 35 euros. Não é tanto dinheiro, mas eu ganho pouco, tinha acabado de comprar a passagem para Paris, então hesitei por um instante. Depois pensei melhor e comprei a passagem. 30 minutos se passaram e Genevieve me ligou falando que uma vizinha precisava de baby-sitter para quinta (ontem) e ela tinha me indicado.

Em seguida a vizinha me ligou, combinamos tudo e ontem fui lá. Um bebê de 1 ano e meio e um outro menino duns 3, 4 anos. Os dois muito fofinhos. Cheguei no apartamento e eles estavam acordados, então tive que colocá-los para dormir e, porque não, contar historinha - em francês, coisa linda. Uma hora depois os dois estavam em sono profundo e fiquei no gtalk, usando o macintosh com uma tela gigante que ficava na sala de televisão. Ganhei o mesmo tanto que ganho por dia na Brasserie... Como era na vizinha, em 3 minutos eu estava de volta e ela pegou meu telefone para quando precisar dos meus serviços novamente.

Além do dinheiro, o que me deixa feliz é perceber que eu tenho jeito com criança, apesar de tudo que meus amigos me falavam quando eu pensava em ser au pair. Só para lembrar: os dois meninos nunca tinha me visto na vida, ficaram sozinhos comigo em casa e dormiram tranquilos e satisfeitos.

Na Brasserie, a semana foi bem tranquila. Apesar do sol continuar lá brilhando, o frio voltou. E quando faz frio, todo mundo se esconde. A regra só não vale para a sexta, porque... Bom, porque é sexta, obviamente. Durante o trabalho, é tudo muito corrido e nem tenho tempo de conversar com as outras pessoas que trabalham lá. Uma das garçonetes sempre almoça comigo, mas ela não é muito de conversar. Tem alguns dias em que a sogra da Chrystel, minha chefe, e mãe do Philip, o chefe de cozinha, vai ajudar no caixa. Ela trata todo mundo pour "vous", inclusive a Chrystel e acha que eu estou lá para servi-la também. Então quando ela me manda fazer algo eu obedeço, mas quando fico um pouco perdida e pergunto alguma coisa ela só me diz: "eu sou a caixa, não tenho nada a ver com isso". Mala. Para não dizer coisa pior.

Além de levar os pratos nas mesas, como eu já disse, ajudo a lavá-los, o que significa colocar no lava-vasilhas, tirar e ver se tá limpo mesmo - se não tiver, dar um jeito de deixar limpo - enxugar e guardar. Nesse processo, todo cada dia aumenta o meu desprezo por pessoas que desperdiçam comida. Nunca gostei de quem deixa metade do almoço no prato, mas agora tenho três vezes mais motivos para detestar essas pessoas. Primeiro: as outras garçonetes vem com pressa, não acertam a lixeira todas as vezes, e a pia vai virando um nojo de resto de comida misturada. Segundo: tem umas sobremesas que voltam intocadas quando eu estou morrendo por um chocolate. Terceiro: tem gente que pede um prato cheio de coisas para comer duas batatas fritas, porque não vai almoçar no Spa?

Na escola, eu finalmente passei para o B2! Como hoje foi o último dia, escrevi um cartãozinho para a professora e outro para a Ada, a canadense que no começo me deixava impaciente, mas que no fim me tratava tão bem que eu aprendi a admirar e acabei me afeiçoando. Ela me disse que tem uma casa grande no Canadá e mora sozinha, por isso a família e os amigos ficam sugerindo que ela mude para um apartamento. Falei com ela para receber estudantes estrangeiros em casa, igual a Geneviève. Quem sabe ela não vai pensar a respeito?

Hoje cheguei em casa e fui fazer a unha, que tava uma coisa realmente horrorosa depois de tanta lavação de vasilha. Nesse processo deixei a TV ligada e percebi que minha compreensão oral está realmente muito melhor. Percebi também a quantidade de reality show de culinária que existe por aqui. Não são programas de receita, como Ana Maria Braga, são competições com gente comum ou chefes de cozinha, mas tudo muito sofisticado. No geral são interessantes, mas é cozinha demais...

Daqui a pouco o Thibaut chega em Lyon, mas ele não vai para Avignon comigo, pois os pais dele vão passar um mês no Nepal e ele vai passar o sábado com eles. Como ele chega meia noite, comprei um red bull para tentar ficar acordada. Custou 1,5 (não foi um energético genérico, foi red bull mesmo)... Espero que funcione. Espero também ter muita coisa para contar na segunda! Bom fim de semana a todos!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Espetinho de queijo?

Churrasco com passeio de barco inflável: coisas que só a França faz por você

Sim, eu estou de volta! Não, eu não abandonei o blog. O fato é que a primeira semana de trabalho sempre é difícil, mesmo quando se tem uma jornada de apenas 15 horas semanais. A rotina de ficar três horas por dia em pé, andando de um lado para outro, com pratos e cestinhas de pão nas mãos (já expliquei que francês come TUDO com pão né?) fez os dias da semana ficarem todos muito parecidos. Só que cada dia foi mais quente que o outro e, como eu já expliquei que europeu ama sol, isso significou cada dia mais clientes.

Até quinta eu estava muito perdida com os números da mesas. Mas nesse dia fez um "calor" fora do normal para o mês de abril (25 graus) e a brasserie ficou completamente lotada. Na marra eu aprendi a carregar três pratos duma vez (leia-se braços muito doloridos no fim de semana) e na sexta eu sabia exatamente para onde levar cada prato. No fim do expediente a chefe perguntou se eu podia ficar um pouco mais para ajudar a colocar as mesas para dentro (porque eles não abrem fim de semana). Os 20 minutos a mais de esforço físico foram compensados com 5 euros a mais no meu pequeno salário semanal e, em seguida, com um sorvete Hagen Das.

Nesse ponto eu preciso fazer um adendo e lembrar de como eu fiquei feliz no momento em que minha chefe me entregou o envelope com algumas preciosas notas de euro dentro. Não era o melhor salário do mundo, mas de repente eu lembrei que estava do outro lado do oceano, sem muitos amigos, longe de toda a minha família, mas eu não ia passar fome, nem qualquer tipo de dificuldade, porque eu posso me sustentar com o meu próprio esforço (com muitas restrições, é verdade, mas ainda assim com muito orgulho).

Com exceção da segunda, quando a aula começa e termina mais tarde (porque toda segunda chegam alunos novos), eu almoço na brasserie todos os dias. Terça passada comi pato com um legume verde esquisito que preferi não saber o que era. Quarta foi filé com fritas. Quinta foi uma salada deliciosa com atum cru, tipo sashimi. Sexta foi carne com fritas e salada. Hoje carne com fritas de novo. A comida é sempre muito gostosa, mas é importante ressaltar que, na verdade,quem gosta de carne crua não são os japoneses, mas sim os franceses. No restaurante tem uns pratos lindos, mas que se a gente analisar friamente não tem coragem de comer, como a tartare de boeuf, que é nada mais nada menos que carne de boi cortada em micro pedacinhos (não é carne moída), com um ovo cru dentro da casca encima. Falando assim parece mega nojento, mas no prato é lindo.

Quando não tem prato para levar para mesa eu ajudo a enxugar os pratos que o lava-vasilhas lava. De vez em quando voltam umas sobremesas quase intocadas e eu tenho que jogar tudo fora (tem um povo que come duas batatas fritas e devolve o prato - vontade de ir lá xingar e explicar que tem milhares de pessoas no mundo que morrem de fome, mas...). Hoje o Philip, o chef, descobriu que eu gosto de cozinhar e brincou que eu era para a gente trocar de lugar. Ensinei para ele a receita de brigadeiro e ele disse que vai tentar fazer em casa. Ele gosta de futebol e falou que é para eu ensinar a ele e o assistente de cozinha a dançar samba, para eles irem para o carnaval do Rio ano que vem.

Tirando o trabalho, não fiz nada de muito diferente semana passada, exceto na quinta, quando fui assistir a um festival de dança universitária com a Juliana. Pela palavra "universitária"eu deveria ter imaginado que seria uma coisa bem pseudo-cult-abstrata com a intenção de discutir as questões da vida moderna que vai muito mais para o lado da perfomance e da chatice (e de gente correndo pelo palco de cueca carregando um papel alumínio gigante) do que da dança propriamente dita.

Nesse dia a Geneviève tinha partido em viagem (e só volta segunda que vem). Ela falou que eu podia convidar meus amigos para virem aqui e entupiu a geladeira de comida, exatamente como a minha mãe faz no Brasil quando vai passar um fim de semana (dois dias) fora. O problema é que, no momento, não tenho amigos para convidar. "C'est pas grave".

Sexta meia noite o Thibaut chegou de Paris e fui encontrá-lo na estação. Eu tava tão, mas tão, mas tão cansada, que cheguei na casa dele e apaguei. Sábado, com as energias renovadas, fomos para a casa de campo de um dos amigos que moram com ele. Fizemos churrasco mas, obviamente, nada que lembre o Brasil. Perguntei se eles faziam espetinho de queijo e eles acharam bizarro. Na verdade, o ritual foi o seguinte: comemos uns espetinhos, umas linguiças e em seguida bife com macarrão - quando me passaram o prato de macarrão achei super esquisito e falei que não queria. Depois, como vi que todo mundo ia comer, aceitei pra socializar. Tinha também uns molhos, mas eles não têm nem o cuidado de jogar um sal grosso na carne... Enfim, saudades gigantes da nossa farofinha, da picanha, do pão de alho e toda a diversidade e duração do churrasco brasileiro.

A gente também tinha comprado cerveja. Eles me deram uma garrafinha, quente, então perguntei porque a gente não colocava a cerveja na geladeira. Eles falaram que, na verdade, já tinham colocado, mas como ia demorar para gelar, eles bebiam "fresca"mesmo. Depois do churrasco, eles ficaram duas horas tentando encher um barco inflável para passear no rio (que era praticamente em frente à casa). Não conseguiram e saíram num barco menorzinho. Eu fiquei tirando fotos e rindo. Depois voltei para a casa e fui ajudar a irmã do Sylvain (cuja família é dona da casa) a fazer uma torta de limão.

De noite, de volta à Lyon, fomos num barco que é meio bar, meio boate. O mundo inteiro estava na borda do rio, sentada na grama bebendo vinho ou cerveja, ou dentro dos barcos-bares. Lyon inteira. Uma coisa impressionante. No dia seguinte fomos tomar café da manhã numa patisserie e depois fomos passear no Halles e compramos vinho para o almoço. De tarde passeamos de bicicleta na borda do Rhône até o Parc de la tête d'or. Chegando lá fomos passar a pé. Com as folhas nas árvores e os jardins floridos realmente dá para dizer o que o parque é lindo - e que o fim de semana não poderia ter sido melhor!

Hoje era para eu ter mudado de nível na escola, mas a professora do B2 não vai poder ir a semana inteira, então os horários iam ficar completamente malucos. Como eu não ia poder ir por causa do trabalho, continuo mais uma semana no B1. Respirando fundo eu supero mais uma semana assim - pelo menos agora os alunos dessa semana são gente boa. Tem um americano de 18 anos, o Sam, que sempre senta do meu lado e, não sei porque, me lembra meu meio-irmão Luiz Gustavo.

No outro fim de semana, sem ser o próximo, é a páscoa. Aqui a gente não trabalha na segunda-feira. Assim sendo, comprei uma passagem para Paris. Vou sexta à noite e só volto terça de manhã (vou faltar aula nesse dia, mas é por uma casa super nobre). O Thibaut ainda não arrumou apartamento, mas vamos ficar na casa da irmã dele.

Juro que volto a dar notícias em menos de uma semana! Beijos e à bientôt!

p.s.: ontem eu estava zapeando a TV francesa e me deparei com uma versão dublada (leia-se bizarra) de Caminho das Índias! Ri sozinha...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ce n'est pas facile

Paris me espera!

Primeiro dia de trabalho. Mais ou menos a mesma coisa de quinta-feira, mas com sol, o que significa mesas do lado de fora da brasserie (que fica numa praça) e mais números para decorar. A chefe ficou satisfeita com a calça preta que comprei e no fim do expediente disse que gosta muito de gente como eu, que se esforça para aprender e fazer tudo direito. O que ela me pagou por quinta foi um pouco abaixo do que eu esperava, mas é melhor do que não ter salário e, de qualquer forma, estou ganhando experiência - sem contar que a chefe é paciente e não se importa de ter que me ensinar tudo. Ela tirou cópia do meu passaporte para que eu seja uma trabalhadora legal na França, e isso também conta.

Na escola, uma penca de alunos novos. Semana passada eu quase tive um surto de falta de paciência porque ninguém além de mim conversava e todo mundo era muito lerdo, mas hoje foi bem diferente. Dessa vez temos três homens (um alemão, um colombiano e um meio-americano, meio-indiano), duas alemãs, uma mulher que não sei de onde é, mas que morou 10 anos na Nova Zelândia, uma colombiana, uma menina da Letônia que estuda em Barcelona e continuamos com a canadense, uma brasileira que não é a Juliana e a suiça de cara fechada. Mas semana que vem vou para o B2 (na escola temos os níveis A1, A2, B1, B2 e C1) e muda tudo de novo, inclusive a professora.

No fim de semana, nada de grandes passeios. Não mencionei antes, mas muita gente já sabe que o Thibaut está se mudando para Paris. Ele passou a semana passada inteira lá, na casa de um amigo, e agora está procurando um apartamento (assim que ele encontrar, irei conhecer a cidade luz). A mudança é por causa do trabalho e o trabalho dele é algo complexo de se explicar, mas é mais ou menos isso: as empresas francesas que querem entrar para a bolsa de valores da França têm que passar por auditorias constantes sobre suas finanças, que atestem que elas não cometem fraudes e está tudo ok. O Thibaut é uma das pessoas que fiscaliza as empresas e tem que descobrir se está tudo certo ou não. Trabalho de gente grande, mas ele tem apenas 23 anos e só faz 24 em outubro.

A sede da empresa fica em Paris, no quartier de la Défense, o centro financeiro da França, e tem tudo que uma pessoa precisa para o dia-a-dia: cabelereiro, costureiro, restaurante, sala de esportes, jardins, sala de obras de arte, agência de viagem, florista e etc, etc, etc. Apesar de tudo isso, ele prefere Lyon, pois, além de ter crescido aqui, ele não gosta da correria de cidade grande.

Questão de parâmetros. Na verdade, em número de habitantes Paris é menor que Belo Horizonte e tem um metrô maravilhoso que funciona até umas 3h da madrugada. Quando você conta para qualquer europeu que São Paulo tem 20 milhões de habitantes, eles quase caem para trás. Poucas são as cidades por aqui que têm mais de um milhão de habitantes. Por outro lado, qualquer lugarzinho com 150 mil habitantes na Europa têm muito mais opção de cultura e lazer que muita capital brasileira...

Distância é outro parâmetro que - bom, nem preciso comentar. Na cabeça de um europeu, se você viaja sete horas de ônibus você chega do outro lado do mundo. Logo, quando digo que Belo Horizonte é relativamente perto de São Paulo e do Rio, eles pensam: "umas duas horas de viagem?". De helicóptero, quem sabe...

Mas bom, eu ia contando do fim de semana. Saí sexta à noite para encontrar o Thibaut na estação e voltei ontem. Ele mora com mais três amigos. Quando chegamos, tinha um pessoal lá fazendo um esquenta para sair mais tarde. A gente preferiu ver um filme: "Diamante de sangue", aquele com o Leonardo DiCaprio, dublado em francês. Meio óbvio, mas eu nunca tinha percebido que os dubladores articulam melhor as palavras que os próprios atores. Muito mais fácil para um estrangeiro entender...

No dia seguinte, depois do almoço, eu tive uma crise de dor de estômago. Thibaut saiu para comprar remédio, mas as duas farmácias do shopping ao lado da casa dele estavam fechadas, então ele foi ao centro da cidade. Demorou tanto que quando ele voltou eu já estava ótima, sentada na sala vendo televisão com os amigos dele. Depois saímos para fazer compras e quando voltamos, novamente tinha um monte de gente fazendo um esquenta para sair mais tarde. Mas ele tinha que dormir cedo, pois domingo participaria de uma competição esportiva para correr 40 km. Fui à praça Terraux assistir à chegada e conheci os pais e uma das irmãs dele. As duas super simpáticas. Já o pai é sério e me tratou pour "vous". Em francês, "vous" é o plural de "tu", mas é também uma maneira mais formal e distanciada de se referir a alguém... Mais tarde preparei um estrogonofe e descobri que não existe batata palha na França.

Fim de semana que vem vamos percorrer toda a borda do Rhône de bicicleta. No outro, acho que vamos para Marseille. Meu grande objetivo de vida no momento é (tentar) dominar o condicional e o subjuntivo, esses dois grandes vilões da língua frances. Mentira. Tenho planos maiores, mas vou deixar para comentar depois...

Au revoir

quinta-feira, 31 de março de 2011

I'm the champion, my friends

Esse post começa com uma música:


Foi essa a trilha sonora que ouvi (na minha cabeça) hoje às 15h26, quando saí da Brasserie de L'Europe, na praça de mesmo nome. Eu consegui um emprego! Sim, um emprego. Tudo que eu tenho que fazer por enquanto é levar os pratos até as mesas, perguntar quem pediu salmão e quem pediu atum - ou quem pediu carne com legumes e quem pediu com batata frita - sorrir, desejar bom apetite, levar a cestinha de pão e, no fim do expediente, tirar e colocar os copos do lava-louças, secar e colocar tudo no lugar. De meio dia às três da tarde, de segunda a sexta. Não sei ainda quanto vou ganhar - mas o salário mínimo aqui é 9 euros por hora, então não será menos que isso.

Sim, eu sei, qualquer pessoa com dois braços e duas pernas e um mínimo de inteligência pode fazer isso... Mas acho que nem quando eu consegui um estágio em redação eu me senti tão vitoriosa. Porque quando eu consegui o estágio lá todo mundo me falava que sim, eu conseguiria (assim como quando eu passei no vestibular e etc, etc, etc). Só que hoje eu conquistei algo contra todos os prognósticos. "Oui, j'ai réussi!"

Bom, mas deixa eu explicar como eu cheguei até aqui. Segunda, voltando do office de imigração, um email me deixou muito feliz. Isso porque na semana anterior entrei num site de anúncios e saí mandando CV's a torto e a direito, e na segunda uma das pessoas me respondeu: entrevista terça a tarde. Vitória! Alguém viu que eu era estrangeira, estudante, sem experiência, ficaria só até agosto, e ainda assim me achou qualificada. Só que, quando desci do metrô, na terça, vi que eu tinha ido parar em uma parte da cidade não tão bonita. Em seguida, vi que o restaurante, na verdade, era um Kebab (uma rede de fast-food de origem árabe ainda mais low-cost que o McDô). Por fim vi que o dono era um turco e só queria uma garçonete atraente para conquistar os clientes. Ok, eu preciso de dinheiro, mas não de me humilhar...

Nada feito. Chegando em casa, entrei no mesmo site e vi um anúncio de uma brasserie (é o termo para designar algo que é meio bar, meio restaurante). Pus o endereço no google: voilà! 5 minutos a pé da escola, no "arrondissement" mais caro de Lyon. Mandei o CV por email, mas por via das dúvidas resolvi passar lá no outro dia de manhã, antes de ir para a aula. E não é que a Madame Tines foi com a minha cara? Teste marcado para sexta-feira. Meia hora hora depois ela me liga: "não, teste amanhã, quinta (hoje)".

Hoje às 11h30 em ponto eu estava lá. O lugar é enorme, tem várias mesas. O ambiente é super agradável e os pratos dão muita água na boca. Madame Tines se chama Chrystel, e seu marido, Philip, é o chef. Ele faz todos os pratos, mas é o ajudante que faz as pizzas e os sanduíches. As outras duas garçonetes são bem simpáticas e todo mundo parecia disposto a me ajudar. Passei três horas em pé. Andando para lá e para cá e, eventualmente, subindo uma pequena escada. Não errei o número de nenhuma mesa. Os clientes me entenderam quando falei o nome dos pratos. Não quebrei nenhum copo, nenhum taça, servi o café direito. Enfim, deu tudo certo. E no fim veio o veredicto: "você volta segunda, porque amanhã outra pessoa vem fazer o teste. Mas não se preocupe que a vaga já é sua. E segunda eu te pago pelas horas de hoje. Você vai vir almoçar aqui? Se você vier eu pago o seu almoço, mas você tem que chegar às 11h30. Ah, e arrume uma calça preta e venha de tênis, é mais prático. Você tem alguma dúvida?" Eu quis perguntar quanto ela ia pagar, mas em vez disso falei: "será que posso levar um cardápio pra estudar em casa? Tem algumas palavras que eu não sei o significado..."

Depois disso, a glória! Depois da glória, vi que eu estava com fome e muito, mas muito cansada. Fui à C&A comprar alguma calça de 15 euros, mas minhas pernas não aguentavam mais. Vim para casa. (É eu sei, eu agora vou emagrecer...)

p.s.: a parte ruim disso tudo é que vou ter que abandonar os ateliês da escola, que já estão pagos até agosto. Até 11h temos aula normal. De 11h15 à 12h45, é o tal do ateliê. Menos gente na sala, temas mais vagos, meio papo de boteco, meio corre-frouxo, mas está pago e eu quero fazer. Tentei negociar, pedi para fazer em outro horário, trocar para alguma aula particular, mas não tem negociação. Não sei se é porque eles são desorganizados, tem uma administração falha, ou se são apenas mercenários mesmo. Pelo aprendizado, realmente não faz diferença, mas se eles tivessem boa vontade tudo se resolveria (como é bom saber usar o condicional!). Nessas horas eu sinto muita falta do "jeitinho brasileiro", que muitas vezes atrapalha tudo, mas em algumas situações significa apenas uma maneira razoável e humana de resolver um problema.

p.s: o salário vai dar para pagar as contas, mas vou continuar tendo que regrar tudo. Logo, se aparecer algum bico de baby-sitting estou dentro. E também me inscrevi em um site para fazer traduções francês-português, inglês-português...

segunda-feira, 28 de março de 2011

A rua do primeiro filme

Dijon: construções medievais e chuva de granizo

Sabe o sol que eu mencionei no último post? Pois é, já foi embora. Ele durou até sexta, e diz a previsão do tempo que só volta sexta que vem. Mas enquanto o tempo vai ficando cada dia mais feio, meu (bom) humor vai voltando cada dia mais forte. Recapitulando: quinta fui na "noite discoteca" da escola. Bem mais ou menos. Lugar longe, bebida cara, DJ duns 60 anos de idade e 23h todo mundo (leia-se adolescentes italianos) desapareceu. Pelo menos acordei cedo no dia seguinte.

Sexta foi um dia movimentado. Como o tema da aula da semana passada era cinema, nosso atelier (a segunda parte da aula), foi uma visita ao Instituto Lumière. O nome é uma homenagem aos irmãos Lumière, os inventores do cinema, que por acaso moravam aqui em Lyon (mas na verdade eles nasceram em Bensançon). O Instituto é dividido em duas partes: um cinema, onde passam filmes mais alternativos e antigos - que geralmente não passam nos cinemas comerciais -, e um museu, instalado na antiga casa da família Lumière.

O lugar é fascinante. Cheio de equipamentos e filmes antigos, que fazem a gente se sentir realmente na época da descoberta do cinema. Coisas que a gente acha super modernas, como fotografia panorâmica e 3D, na verdade já existem há muito tempo e estão lá guardadas pra gente ver e se deslumbrar. Mas o mais legal mesmo é ir até a "rua do primeiro filme" (sim, esse é o nome da rua). A explicação é óbvia: foi naquele endereço que Louis e Auguste Lumière gravaram o primeiro filme da história. O "enredo" é o seguinte: trabalhadores saindo duma fábrica. Dura 45 segundos. Mas foi gravado em 1895...

À tarde fui à universidade procurar o Instituto de Estudos Brasileiros. Estava fechado. Então conversei com uma moça do Instituto Camões, que fica ao lado. Ela me falou que por enquanto eles (do instituto brasileiro) não estão precisando de ninguém para trabalhar lá, mas me passou o email da coordenadora, que é brasileira. O campus fica bem longe, a 5 estações de metrô e mais 15 de tramway do centro. Em volta de cada prédio tem uns jardins, mas não dá pra dizer que é um lugar bonito. Dentro dos prédios reina um silêncio constrangedor e a maioria das portas ficam fechadas. Já que eu tinha ido até lá, aproveitei pra conhecer o Instituto de Comunicação, onde tem o curso de jornalismo... Me interessei bastante por um mestrado profissional em gestão editorial e internet. Mas o ano letivo só começa em setembro e até lá dá para pensar e pesquisar mais um pouco.

À noite fui fazer o baby-sitting e foi muito tranquilo. A bebê já estava dormindo quando cheguei e só acordou uma vez na noite. Dei a chupeta e ela parou de chorar, mas continuou com o olho arregalado. Então a peguei no colo e comecei a embalar, até que ela dormiu e não acordou mais. Dormi na casa da família e no dia seguinte Genevieve me buscou e levou direto para a estação de trem - mas antes passamos em casa para eu trocar de bolsa. Eu estava toda feliz porque tinha chegado 20 minutos antes da hora, mas quando fechei a porta do carro lembrei que tinha esquecido o bilhete. Voltamos em casa correndo e eu entrei no trem faltando um minuto para ele sair. Bom, acho que ninguém nem fica mais surpreso quando eu faço coisas desse tipo...

Dijon é uma cidade lin-da! Bem pequena, mas cheia de coisas lindas para ver - ela foi uma das poucas que não foi destruída com a guerra. Chegando lá fomos direto procurar um restaurante. Depois do almoço andamos, andamos e andamos. Depois paramos num café e eu comi um tiramisu divino. Em seguida tentamos visitar o museu de belas-artes, mas faltava apenas 20 minutos para ele fechar (porque no frio ele fecha às 17h e não às 18h, como no verão). Então fomos ao museu da vida Bourguignonne (Dijon é a capital do departamento de Borgonha), que também estava para fechar. Fizemos uma visita dinâmica. Por fim paramos em outro café para ficar bebendo cerveja até a hora do trem. Cheguei em Lyon 23h, morta de cansaço, mas ainda entrei no gtalk para falar com o Thibaut e depois com minha mãe.

Ontem acordei tarde e o horário mudou. O que significa que agora temos uma diferença de 5 horas com o horário de Brasília. A tarde Genevieve me levou para ver um barco que funciona como bar (não sei se já mencionei, mas aqui têm pessoas que moram em barcos, como em Amsterdam), porque eles estavam precisando de uma garçonete. Estava fechado por causa da chuva. Em seguida fui ver o Thibaut, que tinha acabado de chegar de Madri e ontem mesmo já ia para Paris - e hoje para Londres...

Desde a semana passada, tem uma americana na minha sala que só assiste aula segunda-feira. Tem dois anos que ela mora aqui com o marido (americano) e eles têm dois filhos. Me ofereci para fazer baby-sitting e ela ficou muito feliz, pois a menina que costuma fazer esse serviço para ela está indo embora para a Austrália.

À tarde fui ao ofício de imigração, fiz um exame médico e ganhei meu "titre de séjour" (algo como "título de permanência"). Não sei direito para que serve, mas sei que é importante. Como o médico me mandou emagrecer, comprei legumes para o jantar, em vez de pizza ou lasanha congelada. Ele falou que minha pressão estava no limite para ser considerada como alta. Expliquei para ele que sempre tive pressão baixa, então ele falou que talvez fosse momentâneo, mas me recomendou comer menos sal. Mas o coração está batendo direitinho e o pulmão está bem limpinho, de acordo com a radiografia que eu fiz, logo não se preocupem, que eu vou sobreviver.

Bom, por hoje é só pessoal!

p.s.: dessa vez comprei uma mostarda para a Genevieve, mas espero realmente que na próxima viagem não ocorra nenhum imprevisto!